Pepe Camara

E como não falar do “nosso” toureiro e desta história tão especial?

Terminara o 1° dia das Festas em Honra de Nossa Senhora da Conceição, na Vila de Barrancos naquele ano de 1972. Para trás ficara a frontera que o jovem “maletilla” José Manuel Cha-Cha da Câmara, cruzara “a salto” evitando a presença incómoda da Guarda Fiscal. Já raiavam os primeiros alvores da madrugada quando ele se aproximou da Vila, na sua cabeça passavam em catadupa todos os pensamentos, ouvira dizer que em Barrancos teria uma oportunidade de mostrar o seu valor perante um toiro a sério e era para isso que tinha deixado a Venezuela e os seus emigrantes madeirenses naquele País, à procura da fama e de um lugar ao sol no mundo taurino.

Chegado à improvisada Praça onde se efectuariam os encerros e Touradas, depressa se integrou num grupo de resistentes que vinham do baile e bebendo uns copos e cantando modas alentejanas ou fandangos de Huelva, ou Sevilhanas esperariam que os Toiros chegassem.

Subitamente ecoou no ar o grito habitual de Ay Viene! Ay Viene!, e a praça até ali barulhenta como que suspendeu a respiração. Cada um tomou o seu lugar nos Tabuados, nas Sociedades Recreativas, nas torneiras ou nos madeiros prevendo a chegada dos toiros e cabrestos conduzidos pelos vaqueiros da Casa Irmãos Fialho. José Manuel deixou-se ficar na arena pois sentia-se confiante do seu valor, e queria ver os toiros de perto, talvez à tarde tivesse oportunidade de tourear…

Estava junto à janela das Finanças quando reparou que um dos toiros o olhava fixamente. Como que hipnotizado ouviu-se dizer “que Toro más lindo!”

De repente o Toiro investiu na sua direcção, ele tentou chegar à torneira que estava junto à Sociedade União para abrigar-se da investida mas o animal não lhe deu tempo para tal e colheu-o de forma violenta, sentiu um piton penetrar nas suas costas e sentiu-se desfalecer. Ouvia vagamente a multidão gritar como que num sonho “ay que lo ha matado’

*Alguns dos que estavam na Sociedade conseguiram tirá-lo dos cornos do Toiro e passaram-no através dos madeiros do tabuado, após o que o médico Dr. Lino o tratou e o mandou para o Hospital de Beja no Renault 16 do festeiro do ano passado Tito Pereira.

Entretanto a população de Barrancos quotizara-se para pagar as despesas do seu internamento e conseguia que o seu Toureiro se salvasse.

De compleição rija e com uma vontade férrea de seguir em frente no seu sonho, José Manuel já conhecido por Pepe Câmara recuperou facilmente da colhida e foi convalescer para Barrancos, acarinhado por todos.

A partir daqui, Pepe Câmara renova todos os anos o seu compromisso e a sua gratidão para com Barrancos, regressando a tourear na sua Praça como forma de agradecimento peio carinho que os barranquenhos lhe demonstraram naquela má hora.

Seguindo o seu rumo com muitas dificuldades pelo caminho, mas Toureiro valente com um toureio de verdade sem medo de pisar os terrenos do toiro, Pepe Câmara toma a alternativa no ano de 1974, na Monumental de Barcelona sofrendo uma colhida que o deixou bastante maltratado. Depois começa a preparar-se para a confirmação da alternativa que terá lugar no ano de 1975, na Monumental de Las Ventas em Madrid, o que finalmente acontece e onde após uma faena variada e temerária como era seu timbre sofre uma colhida grave.

Recuperado, a Comissão de Festas desse mesmo ano oferece-lhe um “Traje de luces” como forma de agradecimento pelo seu contributo para o engrandecimento das Festas da Vila, fato este que o Toureiro, 18 anos mais tarde, devolvera à sua Terra adoptiva, Barrancos.

É exactamente em Agosto de 1993 que o Povo e a Câmara de Barrancos lhe promovem uma significativa e carinhosa homenagem e a que Pepe Câmara agradecido como sempre retribui da forma que melhor sabe, toureando os Toiros de Varela Crujo.

*Dos toureiros destaque para o já bem conhecido Pepe Câmara, hoje matador encartado, que enquanto novilheiro aqui veio tourear anos seguidos em agradecimento pela maneira como aqui foi tratado aquando da grave colhida nesta praça na 1ª vez que por aqui apareceu.

Toureou o 1° do dia 29, com bons passes; quer de capa, quer de muleta, rematando à 2ª tentativa e recebeu como prémio uma orelha. O que toureou no dia 31 foi para fazer jus à homenagem que Barrancos lhe quis prestar,… fez a lide do touro sempre ao som de música, terminou com uma segunda estocada e teve como prémio as duas orelhas, o rabo e uma pata do Touro.”(1)

Costuma dizer-se que cada Terra tem o seu toureiro, Barrancos não foge à regra e tem em Pepe Câmara o seu toureiro. (II)

(1) – O Luzeiro, n° 352, de Set. de 1993.

(II) – in Arenas do Tejo, artigo “Pepe Câmara, o toureiro de Barrancos”, de António Tereno.


Oferta de Traje de Luces ao Povo de Barrancos

*créditos Francelino Domingues

Despedida do nosso Pepe Camara

*créditos Francelino Domingues
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