
Porque estamos a falar de uma forma de tauromaquia popular desde tempos imemoriais, possivelmente com mais de trezentos anos, que passou de geração em geração muito pela memória oral, se bem que existem registos fotográficos de finais do século XIX e relatos de Comissões de Festas do início do século XX, que atestam a importância que as corridas de touros já tinham na época, mostrando também a mesma praça de hoje que se transcende, que muda totalmente de aspecto com os tabuados a dar-lhe uma nova e distinta fisionomia. As Festas perdem-se no tempo, mas têm lugar sempre nos últimos dias de Agosto e sempre em honra da padroeira deste concelho.
Barrancos é uma Vila Portuguesa, alentejana, pertencente ao distrito de Beja, cidade da qual dista cerca de 100 Kms, e faz fronteira com Espanha, nomeadamente com Encinasola, que é a povoação mais próxima, Oliva de la Frontera e Valência del Mombuey, e também com o distrito de Évora.
O Concelho do mesmo nome com a superfície de 168 Kms2 está situado nos contrafortes da “Sierra Morena” que se estende desde Jaén em Espanha e vem terminar neste território. Sendo um município de fronteira com uma Identidade Cultural muito característica, com fortes tradições, com usos e costumes enraizados na população que denotam uma clara influência da Andaluzia e da Extremadura espanholas. A tradição taurina ligada ao culto de Nossa Senhora da Conceição que perdura nos nossos dias tem a sua razão de ser, até porque:
“No fundo a tourada de Barrancos não é fruto do acaso ou da vontade deste ou daquele. Tem um tempo e uma lógica. O tempo é o da Festa em honra de Nossa Senhora da Conceição. A lógica tem-se alterado com o tempo. Há cem anos era o tempo de se comer carne de toiro, luxo permitido uma vez por ano. Hoje em dia a tradição e, acima de tudo, o manter da coesão social da comunidade Barranquenha.” (in: “Tabuados de Barrancos; uma praça com identidade – Arenas do Tejo”)
As suas origens podemos situá-las por volta dos século XII e XIII, conforme o atestam documentos da época. Na altura Barrancos era uma aldeia do termo da Vila e fortaleza de Noudar, inserida numa região que terá sido conquistada aos mouros por Gonçalo Mendes da Maia ao serviço do rei D. Afonso Henriques em 1167, integrando definitivamente o reino português por carta de Doação de 4 de Março de 1283, em que Afonso X, Rei de Castela, entrega Noudar e Barrancos a Da. Beatriz, sua filha.
Actualmente com cerca de 2000 habitantes, a Vila de Barrancos dotada de uma autonomia moral muito forte. Como definia os Barranquenhos o Professor Leite de Vasconcelos na sua obra “Filologia Barranquenha”, estudo que fez sobre a língua falada por estes continua a defender as suas tradições e a sua Identidade Cultural de que são expoentes: a língua Barranquenha; os cantares alentejanos e os Villancicos andaluzes (cânticos de Natal dedicados ao Menino Jesus e à Virgem Maria) em volta da fogueira comunitária de Natal (o Lume); o cantar dos Quintos (que tinha lugar quando os mancebos iam às sortes e eram escolhidos para a vida militar, e que a juventude teima em manter), e as tradicionais touradas, com touros de morte na praça da Liberdade (in: Luís Capucha, “Barrancos na Ribalta, ou a Metáfora de um País em Mudança”), que são o expoente máximo das suas Festas de Agosto.
O que nos distingue enquanto Tauromaquia
Tauromaquia popular ligada ao mundo rural em que se insere, a Tourada à Barranquenha, é uma afirmação da nossa diferença cultural que tem que ser respeitada. O povo Barranquenho, como povo de fronteira, sempre sofreu influências culturais da vizinha Espanha e disso podem ser exemplos, como já foi referido: a Língua Barranquenha, os usos e costumes e a própria tradição de matar os touros após a lide na arena, neste caso, na improvisada arena com os “Tabuados”, construída na praça principal da Vila.
Antes era o tempo de viver a ruralidade no seu esplendor, era a reunião do campo com a Vila. Todos os que trabalhavam nas herdades e nos “montes” e que disso faziam modo de vida, regressavam à Vila para festejarem a sua padroeira Nossa Senhora da Conceição e os cultos ligados ao touro bravo. Era o merecido descanso, era o ansiado reencontro, era a suprema fruição da Festa que os motivou ao longo do ano.
No ano de 1914, foi a excepção na data de realização da “Fêra“, em vez dos habituais 28, 29, 30 e 31 de Agosto como mandava o costume e a tradição, foi a realização da mesma adiada para os dias 6, 12, 13 e 14 de Setembro, devido à “má impreção que causou em todos os espíritos o rebentar da guerra Europea que teve logar n’ esses dias” (in: “Balancete da Comissão de Festas de 1914”).
Convém realçar a função social da tourada, salientando que as festividades de então tiveram um carácter solidário e benéfico como referido no documento acima mencionado, pois além do êxito das próprias touradas foi distribuído um “Bodo aos pobres” no qual a carne de 2 touros lidados foi distribuída por 112 pobres, e o valor da arrematação de outros 2 touros foi distribuído também pelos pobres.
Além disto, foi entregue ao médico de então, Dr. Filipe de Figueiredo, o saldo das Festas, para empregar no que julgue mais necessário para o consultório dos pobres d’ esta Vila”.*
Encerros e Touradas
Chegado o primeiro encerro, no dia 29, às oito da manhã, com a íngreme Rua da Igreja inundada de gente de todas as idades, alguns sentados no empedrado a descansar de uma noite, que foi longa em que se bebeu e cantou. O primeiro foguete anuncia a saída do primeiro touro e a rua como que se esvazia por milagre. A própria praça até há pouco barulhenta, como que suspende a respiração e todos correm a buscar o seu lugar nos Tabuados, nas Sociedades, nas Torneiras (Burladeros) ou nos madeiros, nos sítios mais seguros, que o medo é muito! O toiro que será esperado, ora pelos mais afoitos querendo mostrar os seus dotes toureiros pela rua, ora pelos aficionados que já estão na Praça, desponta ao fundo da rua e começam os moços a gritar Ay viene! Ay viene!. Durante o percurso alguns mais valentes tentam toureá-lo, e raro é não haver algum susto ou alguma. colhida, que depois andará no “Mentidero” ou nas bocas do mundo.
Passada que foi a”portada” do lado da Igreja pelo toiro, e já com os madeiros corridos poucos serão os que tentam fazer alguma pega devido ao respeito que o animal impõe. Ouvem-se gritos quando algum mais destemido passa diante e o toureia, até que passado algum tempo vaqueiros com larga experiência vão com a corda tentar laçá-lo. Depois de várias tentativas o animal é laçado e encerrado nos curros preparados debaixo dos tabuados. Repetir-se-a o encerro com o segundo toiro e só depois deste encerrado as pessoas abandonarão os tabuados e a Praça. Aí esperarão para a tourada da tarde.
O meio-dia aproxima-se. É a hora do copo com os amigos, do almoço com a família, dos cantes alentejanos entoados com maestria nas Sociedades e nos bares, da confraternização entre naturais e forasteiros. Resta aguardar com impaciência a hora da tourada, o momento mais esperado debaixo de um sol que nos abrasa. Ninguém arreda pé da Praça. As pessoas circulam a moldura os conhecidos, ocupam os seus lugares nos tabuados e a moldura humana vai-se compondo. Depois de a arena ser devidamente regada pelos Bombeiros, tem lugar o Paseillo, com os espadas e suas quadrilhas, Começa a lide que comporta os Tércios: de Capote, em que o matador ou o novilheiro experimenta os mais variados lances como chicuelinas, verónicas, gaoneras, etc; de Bandarilhas, em que os bandarilheiros ou os matadores põem normalmente três pares de bandarilhas, habitualmente acompanhadas pela música, quando o matador vai bandarilhar; e o de Muleta, em que o matador tenta bordar com a muleta uma bela e artística “faena“, empregando toda a sua valentia, e finalizando com uma certeira e mortal estocada.
É nos madeiros salientes do tabuado que os jovens se irão pendurar quando touro investe e passa por eles no encerro, e na tourada. E. uma forma de mostrarem a sua destreza e a sua valentia perante o animal mítico, enquanto assistem às “faenas” dos matadores presentes, à sorte de bandarilhas e ao momento supremos em que a espada, qual ritual sagrado, cumpre a sua função e o touro é morto. Depois é o momento da apoteose dos toureiros, com a volta à arena passeando os troféus conquistados (rabo e orelhas do animal), e a ansiada saída em ombros.
Este é o ciclo taurino enraizado no coração dos Barranquenhos, que se repete nos dias seguintes e que renova o entusiasmo desta gente de fronteira, do interior mais profundo de Portugal.
Pela sua carga simbólica, com a celebração ininterrupta durante séculos, as corridas com touros de morte na Praça de Barrancos assumem uma importância única no viver não só desta gente, mas também no entender de todos aqueles que nos visitam e participam nos festejos adicionais. Representam também uma grande relevância social, cultural económica que não devemos desprezar. A tauromaquia, enquanto factor de desenvolvimento e mola propulsora da economia local, tem o seu apogeu nas tradicionais Festas de Agosto em Barrancos.
Convém salientar o facto de sermos a única Terra deste País em que existem Touros de Morte, após a lide em Praça.
A importância do futuro
Sabemos a importância de que se reveste manter estas tradições para o futuro, e julgamos que a tradição taurina de Barrancos, integrada no projecto colectivo que visa consagrar a Tauromaquia como Património Cultural Imaterial do País a que pertencemos, Portugal, só pode valorizar a mesma. Tendo a consciência de que é na diversidade cultural de um País que reside a sua maior riqueza, julgamos da maior importância candidatar a tauromaquia como um todo, composto de todas as diferentes formas de culturas tauromáquicas, sejam populares ou não, pois assim será a proposta integradora e devidamente enriquecida no seu conjunto.
Resta-nos afirmar que a Tourada Barranquenha, como Tauromaquia Popular vivida e afirmada durante séculos e nos nossos dias, é também forte impulsionadora da economia e do desenvolvimento e factor de coesão social desta terra Barranquenha que nos enche de orgulho.
*excertos de António Tereno no artigo – Toiros de Morte em Barrancos, in “Tauromaquia Património Cultural de Portugal”
